O Parque Ecológico do Sóter, em Campo Grande, é palco de memórias e frustrações para quem esperava curtir a aposentadoria no local. A administradora Silmara Brito Borges, de 52 anos, mora há duas décadas a uma quadra da área verde de 22 hectares, na Mata do Jacinto. Durante anos, ao sair para trabalhar, ela repetia a promessa de um dia aproveitar o parque. O sonho se concretizou quando se aposentou, há dois anos. Agora, ela frequenta o Sóter diariamente: faz ioga às segundas, quartas e sextas, e pilates às terças e quintas.
“Eu sempre passava aqui e falava: ‘o dia que eu me aposentar, eu vou vir para esse parque, fazer essas aulas, vou curtir a vida’. E, quando eu me aposentei, a primeira coisa que eu fiz foi vir para cá. Eu sempre quis essa qualidade de vida, de poder cuidar do corpo e da mente”, relata Silmara. No entanto, ela conta que a rotina esperada foi prejudicada pela deterioração do parque. O local que serviu como “quintal particular” para o filho Max Henrique, que brincava no parquinho e andava de bicicleta, hoje não tem mais balanços nem escorregador. O parquinho precisa de manutenção e virou depósito de peças quebradas de equipamentos da academia ao ar livre.
A entrada pela Rua Hermínia Grize mostra o abandono: estrutura descascada, grades danificadas e pista de caminhada quebrada. A grama cortada é o único sinal de manutenção. A Prefeitura de Campo Grande informou que, em 2019, reformou as guaritas de entrada, mas os espaços sofreram depredação. “No momento, não há previsão orçamentária definida para uma nova reforma estrutural no parque”, disse.
Apesar disso, a aposentada inspirou a irmã, que se mudou de São Paulo para a região. O filho e a sobrinha de Silmara plantaram um pé de ipê perto do parquinho. “Já que o parque faz parte da nossa história, vamos fazer parte da história dele também”, explicou.
Na outra entrada, na esquina das ruas Cristóvão Lechuga Luengo e Antônio Rahe, há atividades esportivas. O corretor de seguros Fabrício Vitor Felipe, de 46 anos, joga tênis no local. Ele destaca a importância de ter uma quadra pública, mas pede melhorias: “Deveriam apresentar um projeto para, pelo menos, pintarem a quadra.” O grupo de mais de 40 frequentadores fez uma vaquinha para comprar equipamentos e pintar o espaço.
A precarização também afeta a economia local. A empresária Maria Clara da Silva, de 18 anos, abriu a cafeteria Kioko Luz Sana em frente ao parque, com cardápio fitness para atrair frequentadores. “Hoje em dia o nosso público não é nada do parque”, afirma. As pessoas vêm de outras regiões, como o Parque dos Poderes. “É um parque que tem muito potencial, mas acaba não sendo tão cuidado”, finaliza. Dados da prefeitura apontam que cerca de 800 pessoas passam pelo Sóter todos os dias.
