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Brazil marks five years of Taliban rule, a story older than 2021

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Brazil marks five years of Taliban rule, a story older than 2021
Publicado em16 de agosto de 2026
EditoriaNotícias
Tempo de leitura4 min

Em 15 de agosto de 2026, completam-se cinco anos desde a retomada de Cabul pelo Talibã. A data é um momento para analisar o histórico do país, evitando duas simplificações comuns: tratar o Afeganistão como se sua história começasse em 2021 e explicar sua realidade apenas pela religião ou pelo chamado “fundamentalismo islâmico”.

Antes de olhar para os últimos cinco anos, é preciso lembrar das décadas de guerras, intervenções estrangeiras e violências que marcaram o país. Entre 1979 e 1989, o Afeganistão viveu a ocupação da antiga União Soviética e a resistência dos mujahidin, grupos de combatentes afegãos que lutaram contra as forças soviéticas. Durante a Guerra Fria, parte desses grupos recebeu apoio financeiro, militar e logístico dos Estados Unidos, do Paquistão e da Arábia Saudita. O conflito deixou mortos, pobreza, deslocamentos e uma grave desestruturação social e política.

Os mujahidin não eram um movimento único, mas diferentes grupos que tinham em comum a oposição à presença soviética. Após a retirada da União Soviética e o colapso do governo apoiado por Moscou, as disputas entre facções levaram a uma guerra civil. Foi nesse cenário de fragmentação e violência que surgiu o Talibã, na década de 1990. A palavra taliban significa “estudantes” e remete à origem de parte de seus integrantes em escolas religiosas, as madrasas, muitas delas no Paquistão. O movimento também incorporou ex-combatentes. Apresentando-se como uma força capaz de restaurar a ordem, o Talibã avançou pelo território e, em 1996, conquistou Cabul, estabelecendo o primeiro Emirado Islâmico do Afeganistão.

Após os atentados de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos lideraram uma invasão ao Afeganistão sob a justificativa da “Guerra ao Terror”, derrubando o primeiro governo Talibã. Entre 2001 e 2021, foram vinte anos de presença militar e intervenção internacional, com um Estado afegão dependente de recursos externos. Em 2020, o Acordo de Doha, entre Estados Unidos e Talibã, definiu a retirada das tropas americanas. No ano seguinte, o governo de Ashraf Ghani colapsou e, em 15 de agosto de 2021, o Talibã entrou novamente em Cabul.

O período entre 2021 e 2026 marca a consolidação do segundo Emirado Islâmico. O Talibã, que antes era um movimento insurgente, agora administra ministérios, fronteiras, impostos, forças de segurança e tribunais, além de manter relações diplomáticas com alguns países. Na prática, governa o Afeganistão, mas o reconhecimento internacional segue limitado. A ONU, por exemplo, trata o governo Talibã como autoridade de facto.

Houve uma redução nas mortes de civis ligadas ao conflito armado, embora o Estado Islâmico – Província de Khorasan (ISIS-K) continue realizando atentados. Para parte da população, o período significou menos exposição à guerra cotidiana, mas também maior controle político, moral e social. A situação das mulheres é o exemplo mais claro desse controle. Desde 2021, medidas restringiram o acesso de mulheres e meninas à educação, ao trabalho, à circulação e à participação na vida pública. Meninas estão impedidas de frequentar o ensino secundário e mulheres foram excluídas das universidades. Essas restrições passaram a integrar as estruturas políticas, jurídicas e administrativas do Emirado.

Atribuir essa situação à afirmação de que “o Islã oprime as mulheres” é uma leitura simplificadora. O movimento seleciona e institucionaliza interpretações religiosas específicas para fundamentar suas políticas de gênero. Essa perspectiva não representa um consenso entre os muçulmanos. Desde os primeiros séculos do Islã, mulheres participaram da produção e transmissão do conhecimento religioso. Aisha bint Abi Bakr, esposa do Profeta Muhammad, é reconhecida como uma das principais autoridades intelectuais da primeira comunidade muçulmana. O Alcorão dirige obrigações morais e espirituais a homens e mulheres, apresentando ambos como responsáveis por suas ações.

As mulheres afegãs não são apenas vítimas passivas. Elas têm construído formas de resistência por meio de redes de educação informal, manifestações, produção de conhecimento e ativismo dentro e fora do país. A economia também é um ponto de atenção. O Afeganistão chegou a 2021 dependente da ajuda internacional. Com a retirada das forças estrangeiras, o país enfrentou redução da ajuda externa, sanções, congelamento de ativos e desemprego. A pobreza e a insegurança alimentar atingem parte expressiva da população. A crise econômica não pode ser atribuída apenas ao Talibã, mas as políticas do grupo, especialmente as que restringem a educação e o trabalho das mulheres, aprofundam desigualdades.

As relações regionais também mudaram. O Paquistão, que por décadas foi associado ao fortalecimento do Talibã, agora tem relações tensas com Cabul. Islamabad acusa integrantes do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP) de usar o território afegão para organizar ataques, o que é negado pelas autoridades afegãs. O Talibã contemporâneo não é um movimento subordinado a interesses externos, mas uma autoridade política que controla o território e busca estabelecer relações próprias.

Compreender o Afeganistão atual exige enfrentar contradições. Menos guerra não significou mais direitos; controle territorial não produziu reconhecimento internacional; maior autonomia política não eliminou a vulnerabilidade econômica e humanitária. Denunciar as violações de direitos é necessário, mas não pode apagar a responsabilidade histórica dos Estados Unidos, da OTAN, do Paquistão, da antiga União Soviética e de outros atores nas condições que marcaram o país. O desafio é olhar criticamente para o governo Talibã sem transformar o Afeganistão em sinônimo do grupo, denunciar as violações sem atribuí-las genericamente ao Islã e analisar o presente sem apagar mais de quatro décadas de guerras e intervenções.

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