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Última verificação17.08.2026
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Brazil faces change that annoys but certainty that is absurd

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Brazil faces change that annoys but certainty that is absurd
Brazil faces change that annoys but certainty that is absurd
Publicado em17 de agosto de 2026
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Tempo de leitura3 min

A psicóloga Cristiane Lang publicou artigo nesta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, no qual analisa a relação entre a mudança e a certeza absoluta. O texto parte de uma frase de Voltaire para discutir como as pessoas lidam com transformações e convicções.

Segundo a autora, mudar irrita porque desmonta a mobília da alma. O ser humano gosta de reconhecer o caminho mesmo no escuro. Há conforto nas repetições: as mesmas opiniões, os mesmos hábitos, os mesmos julgamentos servidos no café da manhã como se fossem pão quente. A mudança chega sem pedir licença. Troca os móveis de lugar, abre janelas que estavam fechadas havia anos, faz corrente de ar onde antes havia apenas poeira acomodada. É natural que incomode.

O problema, afirma, começa quando transformamos esse incômodo em trincheira e passamos a defender nossas certezas como soldados cansados demais para voltar para casa. A certeza absoluta é uma espécie de arrogância silenciosa. Ela não grita necessariamente. Muitas vezes fala baixo, com voz educada, mas carrega dentro de si uma convicção perigosa: a de que já compreendeu o mundo por inteiro.

Quem tem certeza de tudo não escuta, espera apenas a sua vez de falar. Não conversa, corrige. Não encontra pessoas, classifica. A certeza excessiva transforma o outro em erro ambulante. A autora destaca que nenhuma dor individual é régua universal. Nenhum amor vivido explica todos os amores. Nenhuma fé alcança todos os mistérios. O mundo é vasto demais para caber na biografia de uma única pessoa.

Lang observa que as pessoas mais rígidas costumam ser também as mais frágeis diante da mudança. Defendem suas certezas com a violência de quem teme que uma única pergunta seja capaz de derrubar o edifício inteiro. A vida, no entanto, é especialista em desmentidos. Ela desmente o jovem que jurava nunca perdoar. Desmente a mulher que acreditava conhecer perfeitamente o homem que dormia ao seu lado. Desmente o pai que tinha certeza sobre o futuro do filho.

Mudar de ideia exige uma coragem que raramente recebe aplausos. O mundo admira quem sustenta opiniões com firmeza, mas deveria admirar também quem reconhece: eu estava errado. Coerente não é quem nunca muda. Coerente é quem continua fiel à busca da verdade, mesmo quando essa busca o obriga a abandonar antigas convicções.

A natureza inteira parece compreender isso melhor do que nós. As árvores perdem folhas sem considerar o outono uma humilhação. Os rios mudam de curso quando encontram obstáculos. O mar nunca repete exatamente a mesma onda. Só o ser humano insiste em tratar a transformação como fracasso.

Há quem atravesse décadas sem revisar um único preconceito, uma única opinião, uma única certeza sobre os outros ou sobre si mesmo. Essas pessoas parecem estátuas: sólidas, imponentes, admiradas à distância. Mas estátuas não florescem. Não aprendem. Não amam melhor aos setenta do que amavam aos trinta.

A dúvida, ao contrário, é fértil. Ela faz perguntas. E perguntas são sementes. Essas perguntas não enfraquecem o pensamento; elas o humanizam. Voltaire talvez soubesse que a maior ameaça à convivência humana não é a divergência, mas a convicção absoluta. Guerras começaram porque alguém tinha certeza de possuir a única verdade legítima. Famílias se romperam porque alguém acreditou conhecer completamente o coração do outro.

Ninguém consegue olhar o mundo de todos os ângulos. Somos observadores parciais tentando compreender um universo excessivamente complexo. Reconhecer isso não nos torna fracos; torna-nos humanos. Talvez a maturidade não consista em acumular certezas, mas em aprender a conviver com perguntas sem perder a ternura.

No fim, o que permanece não é a rigidez das nossas opiniões, mas a qualidade da nossa escuta. Resistir à mudança é como tentar segurar água com as mãos fechadas. A mudança pode irritar porque bagunça a casa. Mas a certeza absoluta é absurda porque tranca as portas, apaga as luzes e nos faz acreditar, ingenuamente, que o pequeno quarto onde estamos é o próprio universo.

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