Em Mato Grosso do Sul, 160.087 mulheres estão à frente de negócios e representam 42% dos empresários do estado. O número, porém, não se reflete na permanência dessas empresas. Dados do Global Entrepreneurship Monitor mostram que 28,1% das mulheres adultas no Brasil estão envolvidas em algum tipo de empreendimento, contra 38,9% dos homens. Entre empresas com mais de três anos e meio, apenas 9,8% são lideradas por mulheres, enquanto entre homens o índice chega a 16,8%.
Segundo a gestora do programa Sebrae Delas em Mato Grosso do Sul, Vânia Bispo Torraca, a diferença está ligada às condições de criação dos negócios. “A mulher empreende, na maioria das vezes, por necessidade. Muitas começam depois de engravidar ou porque precisam gerar renda e estar mais próximas dos filhos”, afirma. Ela relata que o impacto de uma pausa no trabalho é direto: “Temos casos de empreendedoras que param por dois meses e, ao retornar, já perderam clientes que levaram anos para conquistar”.
A chef de cozinha Hannah Quize começou a empreender após deixar o emprego formal por questões de saúde, em meio à maternidade. “No início, eu só queria vender para pagar conta de luz, água, comprar leite e fralda”, diz. Sem rede familiar na cidade, ela conciliava trabalho e cuidados com o filho no mesmo espaço. Tatiana Agnelli, do segmento de costura criativa, viveu situação semelhante. “Eles acompanharam tudo, desde quando vendia pouco até quando o negócio começou a melhorar”, afirma.
Vânia aponta que o empreendedorismo também aparece como alternativa para mulheres em vulnerabilidade. “Cerca de 40% das mulheres que sofreram violência encontram na geração de renda uma forma de sair dessa situação.” A convivência entre mães empreendedoras e seus filhos, segundo ela, influencia a percepção das novas gerações. “Essas crianças crescem vendo a mãe trabalhando, tomando decisões. Isso forma uma percepção diferente sobre o que a mulher pode fazer”, avalia.
Apesar disso, especialistas indicam que as desigualdades persistem. As mulheres continuam concentradas em setores de menor faturamento e enfrentam mais interrupções na trajetória profissional. “Os dados mostram que elas têm menos inadimplência, mas também faturam menos, justamente porque precisam dividir o tempo com outras responsabilidades”, conclui Vânia.
